sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Mais uma escolha de Ano Novo... De Bosh para Drumond de Andrade... Soubessem eles das loucuras do séc. XXI...

Representa-se, no verso das tábuas laterais, o terceiro dia da Criação do Mundo – não se  vêem seres humanos nem animais – apenas, dentro de um frágil globo transparente, vegetais e minerais pintados em tons de cinzento e verde – uma forma de contrastar com a intensa cor que surgirá logo que se abram os dois postigos O tríptico, quando fechado, tem uma citação transcrita do Génesis “Ele mesmo ordenou e tudo foi criado“. Abrindo-se as duas asas ou postigos, deparam-se-nos as três tábuas – uma explosão de cor e de beleza – no postigo da esquerda o Paraíso  TerrenoouTerreal; ao centro a tábua principal –  o Jardim das Delícias  – e no postigo da direita o Inferno Musical.

In A VIAGEM DOS ARGONAUTAS


 Uma receita de Ano Novo dada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Dezembro/1997.

Ah, se o poeta soubesse do FB ...